CARACTERIZAÇÃO DA SOBRECARGA DE MEDICAMENTOS E POSSÍVEL ASSOCIAÇÃO COM FRAGILIDADE FÍSICA
INTRODUÇÃO: O envelhecimento populacional está associado ao aumento da multimorbidade e ao consumo de medicamentos. Embora a polifarmácia seja reconhecida como fator de risco para desfechos adversos, a influência qualitativa da sobrecarga farmacológica, especialmente das propriedades sedativas e anticolinérgicas, sobre a força muscular ainda é pouco explorada. OBJETIVOS: Este estudo objetivou caracterizar o gradiente de vulnerabilidade funcional entre idosos da comunidade e de ambulatórios especializados e avaliar possível associação entre os fenótipos farmacológicos e a fragilidade física , ajustando para fatores de confusão clínicos e demográficos. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo transversal e multicêntrico, envolvendo 1.102 indivíduos com 60 anos ou mais provenientes da atenção primária e secundária. A farmacoterapia foi avaliada considerando a ocorrência de polifarmácia (uso de mais de 5 medicamentos cronicamente) e diferentes perfis (fenótipos) a partir da sobrecarga global, classificada por meio do Drug Burden Index (DBI). Os participantes foram classificados em quatro fenótipos farmacológicos: ausência de sobrecarga (DBI=0 e uso de até 4 medicamentos/dia), polifarmácia isolada (DBI=0 e uso de 5 ou mais medicamentos/dia), carga anticolinérgica ou sedativa isolada (DBI > 0 e componentes de carga anticolinérgica ou sedativa isoladamente identificadas) e carga mista (DBI > 0 e carga anticolinérgica e sedativa identificadas). A força muscular foi avaliada pela força de preensão palmar utilizando um dinamômetro hidráulico. As associações foram investigadas por Regressão de Poisson com variância robusta, ajustada por idade, sexo, osteoartrose, atividade física e desempenho cognitivo. O estudo foi aprovado por Comitês de Ética em Pesquisa e todos os participantes assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) previamente à qualquer procedimento metodológico. RESULTADOS: A prevalência de força muscular reduzida foi de 10,4% na comunidade e 49,7% em idosos ambulatoriais. Observou-se um aumento progressivo desse desfecho conforme o grau de sobrecarga farmacológica, atingindo 50,9% entre indivíduos com carga mista. Na análise ajustada, apenas a carga sedativa (RP = 1,37; p = 0,020) e a carga mista (RP = 1,50; p = 0,002) permaneceram associadas à força muscular reduzida, enquanto a polifarmácia (RP = 0,97; p = 0,791) e a carga anticolinérgica isolada (RP = 1,11; p = 0,434) não apresentaram associações significativas. Idosos atendidos em ambulatórios especializados apresentaram risco aproximadamente 4,6 vezes maior de apresentarem força muscular reduzida (RP = 4,59; p < 0,001). CONSIDERAÇÕES FINAIS: A sobrecarga farmacológica caracterizada por propriedades sedativas, isoladamente ou em combinação, está independentemente associada à força muscular reduzida em idosos. A estratificação qualitativa da farmacoterapia pode auxiliar na identificação de perfis de maior vulnerabilidade funcional.
PALAVRAS-CHAVE: Idoso; Polifarmácia; Força Muscular; Anticolinérgicos; Sedativos; Drug Burden Index.
Votação encerrada.