CORRELAÇÃO ENTRE NÍVEIS DE ANSIEDADE E HABILIDADES METACOGNITIVAS EM ESTUDANTES DE MEDICINA DE CURITIBA
INTRODUÇÃO: A ansiedade acomete de forma expressiva estudantes de Medicina, cenário agravado por uma cultura acadêmica que privilegia o desempenho em detrimento do autocuidado. A metacognição, entendida como o conhecimento e a regulação dos próprios processos cognitivos, costuma ser apontada como possível fator protetor diante desse quadro, embora se trate de um construto multifacetado, cujos componentes podem não exercer o mesmo efeito sobre o bem-estar psíquico. OBJETIVOS: Correlacionar os níveis de ansiedade e as habilidades metacognitivas em estudantes de Medicina de Curitiba, investigando se diferentes dimensões da metacognição exercem efeitos distintos sobre esse desfecho, além de caracterizar a amostra e comparar os indicadores segundo variáveis sociodemográficas. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo observacional, transversal, conduzido com estudantes de Medicina de cinco instituições de Curitiba, avaliados por formulário eletrônico contendo itens do Inventário de Consciência Metacognitiva (MAI), o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI) e variáveis sociodemográficas. Após triagem de qualidade dos dados brutos, a amostra final foi de 300 participantes. Empregaram-se testes de normalidade, correlações e comparações não paramétricas e regressão linear múltipla; de forma exploratória, o MAI foi decomposto em componentes por correlação item a item e análise de componentes principais, com validação por divisão amostral. RESULTADOS: A correlação entre os escores totais de MAI e BAI não foi significativa, e o MAI total não se manteve como preditor de ansiedade mesmo em modelo ajustado por variáveis sociodemográficas. A decomposição do instrumento da metacognição revelou dois blocos de itens com efeitos opostos sobre a ansiedade: um de autorregulação e autoeficácia, associado a menores sintomas ansiosos, e outro de automonitoramento e autoquestionamento contínuo do próprio desempenho, associado a maiores sintomas — padrão replicado em duas metades independentes da amostra. Um índice que contrasta esses blocos explicou parcela substancialmente maior da variância da ansiedade do que o escore total isolado. Mulheres apresentaram ansiedade significativamente maior que homens, e o histórico de saúde mental mostrou gradiente ordenado com a intensidade dos sintomas; a tendência de queda da ansiedade ao longo da formação médica não se confirmou após correção estatística. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A metacognição não constitui fator uniformemente protetor contra a ansiedade em estudantes de Medicina, mas construto que reúne, sob o mesmo escore, processos de efeitos opostos sobre o bem-estar psíquico: autorregulação e autoeficácia comportaram-se como protetoras, enquanto automonitoramento e autoquestionamento excessivos comportaram-se como fatores de risco. Essa dualidade explica por que o escore total, isoladamente, sugeriria ausência de relação entre os construtos. Destaca-se, ainda, que mulheres apresentaram ansiedade significativamente maior que homens, sem diferença correspondente na metacognição — vulnerabilidade emocional específica, e não menor competência metacognitiva. Em conjunto, os achados reforçam que estratégias de apoio à saúde mental na formação médica devem reconhecer tanto a heterogeneidade interna da metacognição quanto as diferenças por sexo na vulnerabilidade à ansiedade.
PALAVRAS-CHAVE: Metacognição; Ansiedade; Estudantes de Medicina; Saúde Mental; Autorregulação da Aprendizagem.
Votação encerrada.