CORRELAÇÃO ENTRE FUNÇÃO RENAL E CRESCIMENTO LINEAR EM CRIANÇAS APÓS TRANSPLANTE RENAL: ESTUDO RETROSPECTIVO DE 2 ANOS
INTRODUÇÃO: A doença renal crônica na infância compromete o crescimento linear, e o transplante renal é o tratamento de escolha capaz de promover catch-up estatural, ainda que parcialmente. A literatura sugere que crianças com função do enxerto mais preservada apresentam maior ganho no escore-Z de altura, mas a magnitude e os mediadores dessa associação permanecem incertos em coortes brasileiras de pequeno porte. OBJETIVOS: Investigar a associação entre função renal, avaliada por creatinina sérica e taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) pela fórmula CKiD U25, e a variação do escore-Z de altura (ΔZ-altura) nos dois primeiros anos após o transplante, em crianças acompanhadas em centro terciário de nefrologia pediátrica. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo de coorte retrospectivo, monocêntrico, avaliando receptores pediátricos transplantados entre 2015 e 2023 no Hospital Pequeno Príncipe (CAAE 67398223.4.0000.0097). Os dados foram extraídos de prontuários físicos e eletrônicos. O escore-Z de altura para idade foi calculado pelas curvas da Organização Mundial da Saúde, por meio dos softwares Anthro e AnthroPlus, e a TFGe pela fórmula CKiD U25. As análises empregaram ANOVA de medidas repetidas com correção de Greenhouse-Geisser, teste de Friedman, correlação de Spearman com ajuste de Benjamini-Hochberg, comparações entre subgrupos (testes t de Student, Mann-Whitney U e Kruskal-Wallis), regressão linear múltipla com diagnóstico de pressupostos e análise de sensibilidade por erros-padrão robustos HC3, além de análise exploratória de catch-up growth. Adotou-se nível de significância de 5%. RESULTADOS: A amostra englobou 39 pacientes, com predomínio do sexo masculino (64,1%), idade mediana ao transplante de 11,73 anos (IIQ 7,53–14,10), com 79,5% transplantados a partir dos seis anos e mediana de HAZ pré-transplante de −2,05. Houve melhora acentuada e sustentada da função do enxerto, com ganho estatural concentrado nos primeiros 12 meses. A correlação entre TFGe média pós-transplante e ΔZ-altura em 24 meses foi positiva, de magnitude fraca (ρ = 0,284; p = 0,084). A regressão linear múltipla explicou 35,6% da variação do ΔZ-altura e identificou o HAZ pré-transplante (β padronizado = −0,589; p = 0,002) e a idade ao transplante (β padronizado = −0,281; p = 0,047) como preditores independentes. Crianças transplantadas antes dos seis anos apresentaram ΔZ-altura mediana de +1,31 contra 0,00 nas demais (p = 0,005), e 75% atingiram catch-up. A frequência geral de catch-up, de 42,1% (IC 95% Wilson 27,9–57,8), foi compatível com a referência brasileira prévia. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Em coorte pediátrica brasileira monocêntrica, a menor idade ao transplante e o estado estatural pré-transplante associaram-se de forma independente ao crescimento pós-transplante de magnitude superior à da função renal isolada, achado coerente com a recomendação corrente de priorizar o procedimento em idade precoce e o controle estatural rigoroso na fase pré-transplante. Estudos multicêntricos prospectivos, com janela de seguimento estendida e variáveis adicionais, são necessários para o aprimoramento dos modelos preditivos do crescimento pós-transplante.
PALAVRAS-CHAVE: Transplante de Rim; Pediatria; Crescimento; Taxa de Filtração Glomerular; Doença Renal Crônica.
Votação encerrada.