A INSURGÊNCIA INDÍGENA NAS ARTES VISUAIS BRASILEIRAS CONTEMPORÂNEAS
INTRODUÇÃO: Durante boa parte da história da arte brasileira a produção indígena permaneceu à margem das instituições artísticas, sendo frequentemente compreendida como artesanato, cultura material ou objeto etnográfico. Como observa Fernanda Pitta (2021), essa marginalização contrasta com a presença recorrente da arte indígena nas narrativas sobre a formação da arte brasileira, evidenciando uma dissociação entre sua valorização simbólica e seu reconhecimento institucional. A partir da década de 2010, contudo, a atuação de artistas, curadores e pesquisadores indígenas, aliada à realização de exposições dedicadas à arte indígena contemporânea, passou a tensionar esse quadro. A emergência da arte indígena contemporânea no Brasil constitui um dos movimentos mais significativos do sistema artístico nas últimas décadas, marcada pela ampliação da presença de artistas indígenas em museus, galerias, bienais e outras instituições culturais. Mais do que um aumento da visibilidade, esse processo envolve transformações nas formas de reconhecimento, legitimação e circulação da produção artística indígena. Nesse contexto, a presente pesquisa selecionou quatro exposições representativas e refletiu sobre suas contribuições para a transformação desse cenário. OBJETIVOS: A presente pesquisa teve como objetivo analisar de que maneira as exposições MIRA! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas (2013), ReAntropofagia (2019), Véxoa: Nós Sabemos (2020) e Môquem_Surarî: Arte Indígena Contemporânea (2021) participaram dos processos de emergência e consagração da arte indígena contemporânea no Brasil. MATERIAIS E MÉTODO: Realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental, fundamentada na análise de catálogos, textos curatoriais, artigos científicos e estudos de antropologia, sociologia da arte e arte indígena contemporânea, além de registros das exposições. Esses materiais foram sistematizados em dossiês individuais que permitiram a análise comparativa, segundo quatro categorias centrais, elaboradas a partir do diálogo entre o referencial bibliográfico e o corpus documental: arte, autoria, representação e agência. RESULTADOS: Os resultados evidenciaram que as quatro exposições desempenharam papéis distintos, porém complementares, na transformação do sistema artístico brasileiro. Enquanto MIRA! contribuiu para o reconhecimento institucional da produção artística indígena contemporânea, ReAntropofagia deslocou a discussão para a disputa dos lugares de enunciação e das narrativas da história da arte. Véxoa questionou categorias museológicas historicamente associadas à arte indígena, como artesanato e cultura material, e Môquem_Surarî aprofundou esse movimento ao afirmar referenciais cosmológicos indígenas como fundamento curatorial. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A análise comparativa permitiu identificar deslocamentos nas categorias de arte, autoria, representação e agência, evidenciando que a consolidação da arte indígena contemporânea não decorre apenas da ampliação da presença de artistas indígenas nas instituições culturais, mas da reconfiguração dos critérios de legitimação, curadoria e produção de narrativas no sistema artístico brasileiro (Almeida, 2013, Goldstein, 2019; Dinato, 2019). Conclui-se que essas exposições constituem marcos fundamentais na transformação das formas pelas quais a arte indígena é produzida, reconhecida e narrada no Brasil, contribuindo para a revisão de paradigmas historicamente consolidados na história da arte e nas práticas museológicas.
PALAVRAS-CHAVE: Arte indígena contemporânea; Exposições de arte; Curadoria; Sistema artístico; Consagração artística.
Votação encerrada.