O TIPO DE DOR TORÁCICA PREDIZ A PRESENÇA DE PLACAS NÃO CALCIFICADAS NA ANGIOTOMOGRAFIA CORONARIANA EM PACIENTES DIABÉTICOS?
INTRODUÇÃO: A doença cardiovascular aterosclerótica é a principal causa de morte no mundo e atinge de forma desproporcional os portadores de diabetes mellitus (DM), nos quais as alterações metabólicas e inflamatórias favorecem o desenvolvimento precoce de aterosclerose coronariana. Nessa população, a dor torácica é um marcador clínico pouco confiável, seja pela grande variabilidade de apresentação, seja pela ausência completa de sintomas em decorrência da neuropatia autonômica. O escore de cálcio (EC) igual a zero é classicamente interpretado como marcador de baixo risco cardiovascular, mas essa interpretação é menos sustentada em populações de risco aumentado, como a diabética, na qual predominam placas não calcificadas que não são detectadas por esse exame. A angiotomografia coronariana (Angio-TC) permite identificar essas lesões, porém ainda é pouco descrita a relação entre os diferentes padrões de dor torácica e a presença de placa não calcificada em diabéticos com EC=0. OBJETIVOS: Identificar a prevalência de placas ateroscleróticas na Angio-TC de pacientes diabéticos com EC=0 e diferentes apresentações clínicas, e avaliar se o tipo de dor torácica se associa de forma independente à presença de placa não calcificada. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo transversal retrospectivo, conduzido a partir da revisão de prontuários e laudos de um centro de referência em imagem cardiovascular, incluindo pacientes submetidos a EC e Angio-TC entre janeiro de 2012 e outubro de 2021. De uma base de 3758 exames com EC=0, foram selecionados os pacientes portadores de DM, que em seguida foram classificados quanto à manifestação clínica em ausência de dor, dor atípica e dor típica. O desfecho foi a presença de placas ateroscleróticas não calcificadas na Angio-TC. Variáveis contínuas foram comparadas pelo teste t de Student e categóricas pelo qui-quadrado de Pearson, adotando-se significância de 5%. Por fim, aplicou-se regressão logística binária ajustada para sexo, idade e índice de massa corporal. RESULTADOS: Foram analisados 384 pacientes, com idade média de 58,2 ± 11,0 anos e predomínio do sexo feminino (65,6%). Placas não calcificadas foram identificadas em 80 pacientes (20,8%). Na análise univariada, apenas o sexo apresentou associação significativa com o desfecho, com maior proporção de homens entre os pacientes com placa (55,0% vs. 28,9%; p<0,001). Observou-se gradiente crescente de prevalência de placa conforme o padrão de dor – 19,0% na ausência de dor, 21,0% na dor atípica e 30,8% na dor típica – sem significância estatística na análise bruta (p=0,249). Após ajuste, o sexo masculino (OR 3,85; IC95% 2,23-6,76; p<0,001) e a dor torácica típica (OR 2,53; IC95% 1,10-5,65; p=0,025) mantiveram associação independente com a presença de placa. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Um EC=0 não exclui a presença de aterosclerose coronariana em pacientes diabéticos. Nesta amostra, aproximadamente um em cada 5 pacientes apresentava placa não calcificada à Angio-TC, e o sexo masculino e a dor torácica típica se comportaram como marcadores clínicos independentes desse achado. Os resultados reforçam que, nessa população específica, a interpretação do EC=0 deve considerar o contexto clínico, e que a Angio-TC pode ter papel complementar essencial na avaliação de diabéticos sintomáticos.
PALAVRAS-CHAVE: Diabetes Mellitus; Aterosclerose; Dor Torácica; Escore de Cálcio; Angiotomografia Coronariana.
Votação encerrada.