O QUE PODEMOS APRENDER COM O ENSINO DA AVIAÇÃO NA EDUCAÇÃO EM SAÚDE?
INTRODUÇÃO: A Aviação e a Saúde são indústrias intimamente relacionadas à prevenção de erros, uma vez que atuam em áreas críticas que colocam em risco a vida de uma ou mais pessoas. Embora ambas vêm se aperfeiçoando e utilizando de estratégias similares para garantir baixos índices de erros preveníveis na rotina, ainda mantêm diferenças significativas quanto à forma e ao compromisso em reconhecer, encarar e evitar esses erros. OBJETIVOS: Reconhecer técnicas do ensino de aviação com potencial de transposição para o ensino em saúde e comparar modelos mentais de estudantes e professores em ambas as áreas. MATERIAIS E MÉTODO: Estudo qualitativo, descritivo e comparativo, desenvolvido em duas fases: mapeamento e análise das técnicas pedagógicas empregadas no ensino da aviação e da saúde, e comparação dos modelos mentais de estudantes e professores por meio de questionários (VARK, Keirsey II e Inventário de Consciência Metacognitiva) e de entrevistas tipo grupo focal. A amostra foi composta por 112 participantes, entre estudantes e docentes/instrutores de Ciências Aeronáuticas e de Medicina de duas instituições privadas distintas no sul do Brasil. RESULTADOS: : Dos 102 estudantes que responderam aos questionários, 55 cursavam Ciências Aeronáuticas e 47 Medicina, com maior predomínio de homens na Aviação e mulheres na Medicina. Os resultados do VARK demonstraram preferência por perfil de aprendizagem auditivo entre estudantes de Ciências Aeronáuticas e cinestésico entre os de Medicina, com proporção significativamente maior de alunos com preferência de aprendizado auditivo nas Ciências Aeronáuticas. Na análise do Keirsey II, não houve diferenças significativas entre alunos quanto aos traços de personalidade e temperamento, com maior frequência do Realista Judicativo (SJ) em ambos os cursos. No Inventário de Consciência Metacognitiva, os estudantes de Ciências Aeronáuticas apresentaram escores significativamente maiores nos subdomínios Conhecimento Declarativo e Planejamento, sobretudo nos períodos iniciais da formação. A entrevista focal feita com 4 docentes das Ciências Aeronáuticas e 6 da Medicina demonstrou que as duas áreas convergem quanto ao uso de perguntas reflexivas, simulação e análise contextual dos erros, ao reconhecimento do erro como oportunidade de aprendizado e ao reconhecimento de que hierarquia rígida compromete a segurança. Dentre as divergências, destacam-se nas Ciências Aeronáuticas a sistematização mais pronunciada quanto às simulações com debriefing protocolado e as disciplinas específicas de gerenciamento de segurança, e na Medicina a resistência cultural ao reconhecimento do erro, a dimensão humana do aprendizado e o processo desumanizador do médico como obstáculo cultural. CONSIDERAÇÕES FINAIS: O estudo demonstrou que Medicina e Ciências Aeronáuticas compartilham perfis semelhantes de personalidade e temperamento, mas divergem quanto a preferências de aprendizagem e a consciência metacognitiva, sobretudo nos períodos iniciais. Isso sugere que as diferenças entre áreas estão menos relacionadas a características individuais e mais aos contextos educacionais e culturais em que estão inseridos. Do ponto de vista prático, técnicas consolidadas na aviação mostram-se potencialmente transponíveis ao ensino em saúde, desde que adaptadas às particularidades do ambiente clínico.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino médico; Ensino de aviação; Estilos de aprendizagem; Métodos de ensino.
Votação encerrada.