O EFEITO DA DISSOCIAÇÃO ENZIMÁTICA NA ESTABILIDADE CROMOSSÔMICA DE CÉLULAS-TRONCO MESENQUIMAIS DO CORDÃO UMBILICAL
INTRODUÇÃO: A síndrome do desconforto respiratório agudo (SARA) carece de tratamento curativo para a inflamação pulmonar, e as células-tronco mesenquimais derivadas de tecido de cordão umbilical (CTM-TCU) despontam como candidatas terapêuticas por sua ação imunomoduladora parácrina. Contudo, a obtenção de doses clinicamente relevantes exige expansão in vitro com passagens sucessivas mediadas por enzimas proteolíticas, como a tripsina, que clivam integrinas e proteínas de adesão focal. Como a ancoragem ao substrato é requisito mecanobiológico estrito para a abscisão, a dissociação enzimática durante a fase M pode deflagrar falha de citocinese, binucleação e duplicação do genoma inteiro, com consequente senescência, fenótipo secretor associado à senescência (SASP) e ativação da via cGAS–STING, todos antagônicos ao objetivo imunossupressor pretendido. OBJETIVOS: Investigar o estresse proteolítico do microambiente celular como gatilho mecanístico da falha de citocinese e da subsequente instabilidade cromossômica estrutural em modelos celulares in vitro. MATERIAIS E MÉTODO: Diante da baixa recuperação de mitoses em culturas primárias de CTM-TCU, empregaram-se as linhagens HeLa-eGFP e MRC-5. Populações enriquecidas em mitose foram obtidas por mitotic shake-off e submetidas à exposição aguda à tripsina (1 h), com análise 18 h e 72 h após o tratamento. Paralelamente, culturas assincrônicas de MRC-5 (passagens 4–5) foram expostas a concentrações crescentes de tripsina (0–2%) por 20 h. A cromatina foi corada com Hoechst 33342 e quantificada por microscopia de fluorescência (mínimo de 300 células em objetiva de 100×; 2.000 células em 10–20×). Aplicaram-se Teste Exato de Fisher, Odds Ratio e Correlação de Pearson (α = 0,05). RESULTADOS: A exposição aguda elevou a binucleação de 1,75% para 14,97% em 18 h (p < 0,0001; Odds Ratio = 9,88). Aos 72 h, o fenótipo tetraploide persistiu (12,93% versus 7,42%; p = 0,0059), acompanhado de aumento significativo de pontes nucleoplasmáticas (6,1% versus 2,6%; p < 0,05), enquanto micronúcleos (23,18% versus 18,83%; p = 0,1072) e brotos nucleares (6,14% versus 5,06%; p = 0,4791) mostraram apenas tendência de elevação. Em MRC-5, a binucleação aumentou de 3,13–4,03% nos controles para 5,40% (0,5%) e 7,38% (2,0%), com forte correlação linear positiva entre concentração enzimática e falha citocinética (r = 0,9605; R² = 0,9226; p = 0,0023). CONSIDERAÇÕES FINAIS: A dissociação enzimática, rotineiramente considerada inócua, atua como indutor dose-dependente de falha de citocinese e duplicação do genoma, consolidando o estado tetraploide e precipitando instabilidade cromossômica estrutural. A remoção prévia das células mitóticas ou a substituição da tripsina por dissociadores não enzimáticos configuram estratégias profiláticas promissoras para preservar a estabilidade genômica e a potência terapêutica das CTM-TCU destinadas ao tratamento da SARA.
PALAVRAS-CHAVE: Instabilidade cromossômica; Falha de citocinese; Duplicação do genoma inteiro; Células-tronco mesenquimais; Tripsina.
Votação encerrada.