ANDRÉ BAZIN E A MISE EN SCÈNE NO CINEMA DE FLUXO LATINO-AMERICANO
INTRODUÇÃO: O cinema de fluxo consolidou-se, a partir dos anos 2000, como uma importante tendência do cinema contemporâneo, caracterizada pela valorização da duração, da atmosfera e da experiência sensível em detrimento da organização dramática tradicional. No contexto latino-americano, essas características adquirem significados específicos quando relacionadas às permanências da colonialidade e às condições históricas e sociais do continente. OBJETIVOS: Investigar como o cinema de fluxo se manifesta no cinema latino-americano contemporâneo, relacionando suas características formais ao realismo cinematográfico de André Bazin, às transformações da mise-en-scène e às discussões sobre a colonialidade do poder. Busca-se compreender como os filmes “A Mulher sem Cabeça” (2008) e “O Pântano” (2001), de Lucrecia Martel, atualizam os princípios realistas bazinianos e tornam perceptíveis aspectos da experiência histórica latino-americana. MATERIAIS E MÉTODO: A pesquisa é qualitativa, de natureza bibliográfica e analítica. A fundamentação teórica reuniu textos de André Bazin sobre realismo e ontologia da imagem cinematográfica; estudos de Stéphane Bouquet e Luiz Carlos Oliveira Júnior sobre mise-en-scène e cinema de fluxo; e reflexões de Manuel Fontenla e Aníbal Quijano sobre colonialidade do poder. Também foram examinadas contribuições de Jacques Rivette, Eric Rohmer, Alessandra Brandão e Lev Manovich. A análise fílmica concentrou-se nas estratégias formais presentes nas duas obras selecionadas de Lucrecia Martel. RESULTADOS: Os resultados demonstram que o pensamento de André Bazin permanece relevante para a compreensão do cinema contemporâneo. O cinema de fluxo retoma e amplia princípios associados ao realismo baziniano ao privilegiar a duração dos planos, o cotidiano, os corpos, as atmosferas, o desenho sonoro e a abertura ao imprevisível. Nos filmes analisados, esses procedimentos tornam visíveis relações de classe e raça naturalizadas no cotidiano, evidenciando a permanência de estruturas sociais originadas na colonização. Assim, o cinema de fluxo latino-americano articula forma cinematográfica e experiência histórica. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Conclui-se que o cinema de fluxo constitui uma importante chave de interpretação do cinema latino-americano contemporâneo. Em “A Mulher sem Cabeça” e “O Pântano”, a dilatação temporal, a valorização de acontecimentos cotidianos e a construção sensorial dos espaços permitem apreender experiências marcadas pela colonialidade. A pesquisa amplia, desse modo, as discussões sobre as relações entre realismo, mise-en-scène, cinema de fluxo e identidade latino-americana.
PALAVRAS-CHAVE: André Bazin; Cinema de fluxo; Mise-en-scène; Cinema latino-americano.
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