AS RELAÇÕES ENTRE BRASIL E O MUNDO ÁRABE: A QUESTÃO DA IMIGRAÇÃO ÁRABE NO BRASIL (1890-1960)
INTRODUÇÃO: O presente trabalho investiga a imigração árabe para o Brasil no período republicano (1890-1960), com foco na tensão entre a política imigratória oficial e a realidade demográfica. O problema central reside no critério de classificação adotado pelo Estado, que aglutinou uma complexa diversidade étnica sob categorias amplas, dificultando a identificação das motivações geopolíticas atreladas ao colapso do Império Otomano e não contemplando esse fluxo demográfico nas políticas de atração, que priorizavam o imigrante europeu. OBJETIVOS: O objetivo geral consistiu em analisar o tema sob a teoria das forças profundas das Relações Internacionais, visando compreender o perfil das pressões demográficas e sociais que impulsionaram a imigração, investigar a atuação, a classificação e os cálculos dos atores políticos estatais frente a essa população, além de rastrear a evolução das nomenclaturas oficiais como reflexo direto das tensões geopolíticas globais. MATERIAIS E MÉTODO: A pesquisa de natureza histórico-bibliográfica, qualitativa e documental estruturou-se em três fases. A primeira focou na fundamentação teórica pautada na tensão conceitual entre causalidade e finalidade. A segunda consistiu em uma Revisão Sistemática de Literatura com a elaboração de uma matriz analítica para o cruzamento das fontes secundárias. A terceira fase baseou-se no levantamento quantitativo e análise qualitativa de fontes primárias, especificamente os Censos Demográficos de 1920, 1940 e 1960 e a base de dados da Revista de Imigração e Colonização referente aos anos de 1891 a 1954. RESULTADOS: Constatou-se empiricamente que as autoridades portuárias já registravam nacionalidades específicas antes do colapso formal otomano, evidenciando uma dinâmica de autoidentificação prévia à formação dos Estados modernos no Levante. O estudo dos Censos revelou a ausência de distinção estatística inicial do grupo, com mais de cinquenta mil indivíduos agrupados sob o termo político-geográfico de Turquia-Asiática em 1920, havendo um avanço de desmembramento categórico apenas a partir de 1940. A compilação de mais de cem mil registros de entrada atestou que a predominância inicial genérica dos turcos e sua posterior fragmentação em sírios, libaneses e palestinos acompanharam mecanicamente eventos externos, como as Guerras Balcânicas, a Primeira Guerra Mundial e a consolidação do sistema de mandatos. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A pesquisa demonstrou que o deslocamento ocorreu devido a pressões estruturais e firmou-se de maneira autônoma, sustentado por redes de sociabilidade e inserção comercial. O Estado brasileiro pautou-se por uma lógica jurídico-estatal alinhada ao modelo europeu, onde as metodologias censitárias adotadas priorizaram a soberania de impérios consolidados em detrimento da autoidentificação dos imigrantes. Isso demonstra que essa força demográfica operou e prosperou de forma paralela ao organograma oficial de imigração.
PALAVRAS-CHAVE: Imigração árabe; Relações Internacionais; Política externa brasileira; Forças profundas; Império Otomano.
Votação encerrada.