O QUE NÃO SE VÊ, TAMBÉM FERE: SENTIDOS DA VIOLÊNCIA SIMBÓLICA PARA ADOLESCENTES DA ESCOLA PÚBLICA
INTRODUÇÃO: A violência simbólica atravessa as relações escolares de maneira sutil e naturalizada, razão pela qual nem sempre é reconhecida como violência por aqueles que a vivenciam ou reproduzem. Seus efeitos sobre estudantes e professores estão relacionados às práticas pedagógicas, às classificações institucionais e à legitimação de determinados padrões sociais e culturais. Embora a literatura tenha avançado na compreensão dessas manifestações, ainda são menos explorados os processos pelos quais os próprios adolescentes passam a reconhecer e ressignificar práticas de exclusão, desqualificação e hierarquização anteriormente compreendidas como naturais ou inevitáveis. OBJETIVOS: Compreender as manifestações da violência simbólica no cotidiano de estudantes do Ensino Médio de uma escola pública do Paraná, considerando os sentidos produzidos pelos participantes e os fatores envolvidos em sua sustentação. Especificamente, buscou-se identificar e caracterizar essas manifestações, relacioná-las às dinâmicas institucionais e às estruturas sociais mais amplas, bem como refletir sobre a participação da escola em sua reprodução e em seu enfrentamento. MATERIAIS E MÉTODO: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida na perspectiva da pesquisa-intervenção, com 17 estudantes, entre 14 e 17 anos, matriculados no primeiro ou no segundo ano do Ensino Médio de uma escola pública estadual de Curitiba. Entre setembro e novembro de 2025, foram realizadas sete oficinas, nas quais rodas de conversa e problematizações de situações escolares foram articuladas à elaboração de produções gráficas. O corpus analisado neste relatório foi constituído pelas transcrições dos encontros e pelas produções visuais e verbo-visuais elaboradas pelos estudantes. A análise fundamentou-se na perspectiva dialógica do discurso, de orientação bakhtiniana, considerando também as especificidades da verbo-visualidade. RESULTADOS: Inicialmente, os estudantes significavam a violência simbólica principalmente como uma violência escondida ou pouco visível. No decorrer das oficinas, passaram a reconhecê-la nas relações de autoridade, nas comparações, nas expectativas sobre suas capacidades e trajetórias e nas classificações relacionadas a gênero, religião, origem escolar e condições de saúde. Os enunciados evidenciaram que essas práticas não se restringem às relações interpessoais, mas encontram sustentação em dinâmicas institucionais, pedagógicas e socioculturais que legitimam determinados modos de ser, aprender e participar. Os discursos e as produções gráficas também relacionaram as vivências de desqualificação e exclusão a sentimentos de vergonha, insegurança, invisibilidade e não pertencimento. O processo dialógico favoreceu a problematização de situações anteriormente compreendidas como brincadeiras, conflitos individuais ou acontecimentos comuns, permitindo relacioná-las a processos sociais e institucionais mais amplos. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A violência simbólica se sustenta não apenas pela existência de desigualdades no espaço escolar, mas pela naturalização das classificações, expectativas e relações que as legitimam. A criação de espaços de escuta e diálogo mostrou-se relevante para tornar essas práticas reconhecíveis e favorecer sua problematização pelos estudantes, evidenciando a importância de suas vozes para a construção de relações escolares mais dialógicas, equitativas e comprometidas com o reconhecimento da diversidade.
PALAVRAS-CHAVE: Violência Simbólica; Violência escolar; Adolescentes; Escola Pública; Psicologia Escolar.
Votação encerrada.