NARRATIVAS DE ESCUTA: COMO OS JOVENS DESCOBREM MÚSICA HOJE
INTRODUÇÃO: Descobrir música hoje é muito diferente do que era vinte anos atrás. As plataformas de streaming personalizam a experiência do usuário e decidem por ele boa parte do que vai ouvir, o que torna difícil separar aquilo que foi escolha pessoal daquilo que foi sugestão automatizada. Esta pesquisa investiga como as plataformas participam da construção das práticas de escuta e da formação das identidades musicais dos jovens, a partir da perspectiva da Etnomusicologia Digital, que estuda a música dentro da cultura em que ela circula. OBJETIVOS: Investigar, a partir da escuta cotidiana e da reflexão pessoal, como adolescentes brasileiros vivenciam o consumo musical digital em plataformas de streaming, registrando as próprias experiências de escuta, refletindo sobre a influência das recomendações automáticas no gosto musical e produzindo materiais que expressem essas vivências. MATERIAIS E MÉTODO: A pesquisa combinou três etapas. Na primeira, os pesquisadores mantiveram diários de escuta durante sete dias, anotando músicas, horários, contextos e motivações. Na segunda, foram criadas contas novas no Spotify para simular três perfis de ouvinte: mainstream global, Brasil periférico e MPB, treinados por sete dias com repertórios definidos e acompanhados depois ao longo de noventa dias, com registro semanal das playlists automáticas. Na terceira etapa, um questionário online foi aplicado a usuários de plataformas, reunindo 34 respostas, das quais 31 foram consideradas válidas. RESULTADOS: Os diários mostraram predominância de repertórios já conhecidos e poucas descobertas espontâneas. Nos perfis simulados, o algoritmo trabalhou por semelhança, com forte influência das músicas ouvidas nos três dias anteriores, e as sugestões permaneceram dentro do próprio universo musical de cada perfil em 87%, 93% e 82% dos casos. No questionário, 90,3% dos participantes já haviam descoberto artistas novos por recomendação, 83,9% concordaram que a música influencia quem são e 87,1% notaram mudanças na relação com a música depois da pandemia. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Os resultados mostram dois lados que convivem: o funcionamento mecânico dos algoritmos e o lado subjetivo e emocional das pessoas. A escuta continua sendo uma experiência humana, mesmo dentro de um ambiente organizado por dados.
PALAVRAS-CHAVE: Etnomusicologia digital; Streaming musical; Cultura algorítmica; Práticas de escuta; Identidade musical.
Votação encerrada.