AGROECOLOGIA E REEXISTÊNCIAS: MULHERES RURAIS E A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
INTRODUÇÃO: Historicamente, as ruralidades brasileiras são marcadas por um modelo colonial de produção e concentração de terra, atualizado por meio de novos processos e práticas, a exemplo do colonialismo verde. Nesse contexto, os modos de vida são marcados por relações de poder que produzem condições desiguais na divisão do trabalho, de acesso ao território, e do reconhecimento dos saberes tradicionais. Se, por um lado, o agronegócio reflete a atualização da colonialidade, por outro a agroecologia constitui-se como campo de disputas, lutas e possibilidades de resistência ao domínio completo desse modelo. Em meio a essas tensões, mulheres trabalhadoras rurais representam 45% da força de trabalho no campo e vivenciam a agroecologia de formas distintas, no qual o entrelaçamento entre raça, gênero, classe, geração e território produz saberes, poderes, subjetividades e formas de violência que as afetam diferencialmente. A relação entre a agroecologia e a luta das mulheres por melhores condições de vida é de longa data e, por isso, é importante analisar as experiências cotidianas das mulheres com a agroecologia e suas respostas ao exercício do poder. OBJETIVOS: Compreender os processos de subjetivação de mulheres trabalhadoras rurais engajadas na agroecologia, explorando como suas estratégias de resistência tensionam as desigualdades de gênero e lógicas coloniais nas ruralidades brasileiras. MATERIAIS E MÉTODO: A pesquisa segue um quadro teórico-metodológico que articula a Psicologia Social do Trabalho aos estudos rurais, ao feminismo decolonial e o método cartográfico, operacionalizado pela revisão narrativa da literatura e a análise de documentos produzidos pela Articulação Nacional de Agroecologia. RESULTADOS: As mulheres trabalhadoras rurais engajadas na agroecologia, por meio do trabalho e da auto-organização, tiveram um maior acesso a políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos, Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e a Assistência Técnica e Extensão Rural. Os documentos registram que, mesmo com o acesso ampliado, as mulheres ainda enfrentam dificuldades devido às desigualdades de gênero e a invisibilidade de seus fazeres, fato que, somado às desigualdades de raça e etnia, sugerem uma menor participação de mulheres negras e indígenas nos documentos. A luta política travada pelas mulheres desde o I Encontro Nacional de Agroecologia pode reverberar num maior protagonismo dentro dos espaços deliberativos, de capacitação técnica e de socialização de conhecimentos. As subjetividades produzidas pelas experiências das mulheres engajadas na agroecologia refletem uma micropolítica ativa, conceito discutido por Suely Rolnik e que demonstram formas de rupturas com a lógica colonial-capitalística, mesmo diante das capturas feitas pelo patriarcado, colonialismo e precarização do trabalho. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A partir da auto-organização e da luta política, as mulheres trabalhadoras rurais buscaram formas de resistir às diversas opressões que as atravessam e puderam conquistar maior acesso a políticas públicas e protagonismo. Essas estratégias produzem formas de subjetivação singularizadas que visam novas realidades e confrontam as normas vigentes da subjetividade colonial-capitalística que insiste em invisibilizar seus corpos e fazeres.
PALAVRAS-CHAVE: Agroecologia; Mulheres; Ruralidades; Trabalho; Subjetividades.
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