OS LIMITES DA INTERVENÇÃO HUMANA SOB O CÓDIGO DA VIDA: A PERSPECTIVA DOS ESTUDANTES DE MEDICINA SOBRE O USO DA CRISPR-CAS9 EM CÉLULAS GERMINATIVAS
INTRODUÇÃO: A tecnologia CRISPR-Cas9 consolidou-se, na última década, como a principal ferramenta de edição genômica disponível à pesquisa biomédica, destacando-se pela precisão, pelo baixo custo e pela facilidade operacional em relação às técnicas anteriores. Sua aplicação em células germinativas, entretanto, produz alterações hereditárias e transmissíveis às gerações futuras, o que desloca a discussão do campo estritamente técnico para o terreno da bioética, da regulação sanitária e da formação profissional. Os futuros médicos serão os profissionais responsáveis pelo aconselhamento genético, pela comunicação de riscos e benefícios e pela mediação de decisões complexas envolvendo pacientes e famílias, de modo que sua compreensão a respeito dos limites éticos dessa tecnologia constitui elemento relevante da qualidade da formação médica e da segurança do cuidado. OBJETIVOS: Analisar o nível de compreensão dos estudantes de Medicina sobre as aplicações clínicas da técnica CRISPR-Cas9, com foco nas questões éticas e sociais envolvidas, especialmente no uso em células germinativas MATERIAIS E MÉTODO: O estudo foi conduzido em duas etapas complementares. A primeira consistiu em revisão bibliográfica integrativa, com busca sistematizada na base PubMed mediante descritores controlados e operadores booleanos, triagem dos registros na plataforma Rayyan e relato do processo de seleção segundo a recomendação PRISMA. A segunda consistiu na aplicação de um questionário estruturado, elaborado com base na escala Likert e hospedado na plataforma Google Forms, dirigido a estudantes de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o CAAE 88161425.1.0000.0020, e todos os participantes manifestaram concordância com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS: A revisão incluiu trinta e sete estudos, organizados em cinco eixos temáticos: potencial da tecnologia, segurança, finalidade e limites éticos, justiça social e governança. Foram obtidas quarenta e duas respostas válidas ao questionário. A maioria dos participantes cursava o sexto semestre e declarou contato prévio com o tema em disciplinas obrigatórias; ainda assim, apenas uma pequena parcela afirmou conhecer bem o conceito e as aplicações da CRISPR-Cas9. Observou-se ampla aceitação do uso terapêutico da edição germinativa em doenças graves, contraposta a uma rejeição igualmente ampla do uso para melhoramento genético, justificada sobretudo pelo risco de aprofundamento das desigualdades sociais. A maior parte considerou que a legislação brasileira deve ser flexibilizada apenas mediante restrições e fiscalização rigorosa, e quase dois terços não se consideraram preparados para lidar com as implicações éticas da edição genética em embriões humanos. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Os cinco eixos identificados na literatura encontram correspondência direta nas percepções dos participantes. A cautela quanto à segurança, a distinção entre finalidade terapêutica e melhoramento, a preocupação com a desigualdade de acesso e a preferência por um modelo de governança condicional reproduzem, em escala local, o mesmo percurso argumentativo da produção internacional, ainda que sustentados por conhecimento técnico limitado. Os resultados evidenciam um descompasso entre a exposição formal ao tema e a apropriação crítica de seus dilemas éticos, indicando a necessidade de ampliar e qualificar o ensino de bioética e de genômica na graduação médica.
PALAVRAS-CHAVE: CRISPR-Cas9; Edição genética; Bioética; Células germinativas; Educação médica.
Votação encerrada.