O PROJETO MIGRATÓRIO FAMILIAR E A INSERÇÃO SOCIOCULTURAL DOS ADOLESCENTES
INTRODUÇÃO: A migração forçada constitui uma experiência que ultrapassa o deslocamento geográfico, envolvendo rupturas familiares, culturais e sociais que repercutem nos processos de subjetivação, identidade e pertencimento, especialmente durante a adolescência, período marcado por intensas transformações psíquicas. OBJETIVOS: Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo compreender como ocorre a inserção sociocultural de adolescentes venezuelanos em situação de migração forçada no Brasil, verificando seu processo de integração ao país de acolhida, identificando as dificuldades enfrentadas e analisando as repercussões emocionais dessa experiência. MATERIAIS E MÉTODO: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, fundamentada na Psicanálise Vincular, desenvolvida com duas adolescentes venezuelanas, entre 14 e 16 anos, residentes em um Estado do sul do Brasil. As participantes foram selecionadas por meio da técnica de amostragem em bola de neve, com apoio de instituições de acolhimento a migrantes. Como instrumento de coleta de dados, foi utilizado o Procedimento de Desenho-Estória, composto por cinco desenhos temáticos seguidos de narrativas e inquérito. O material foi analisado à luz dos referenciais sobre migração, transmissão psíquica, contrato narcísico, identidade e pertencimento. RESULTADOS: Os resultados evidenciaram que a migração forçada repercute significativamente na vida das adolescentes, mobilizando experiências de perda, separação e reorganização dos vínculos familiares. Observou-se a preservação de referências afetivas e culturais relacionadas à Venezuela, por meio da manutenção da língua, das lembranças, das figuras familiares e dos projetos de futuro. Também foram identificadas diferentes formas de elaboração da experiência migratória, envolvendo tanto dificuldades no sentimento de pertencimento, quanto possibilidades de integração entre referências da cultura de origem e do país de acolhida. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Conclui-se que a inserção sociocultural de adolescentes migrantes se constitui como um processo singular, gradual e atravessado por dimensões familiares, culturais e subjetivas. Os resultados reforçam a importância de considerar a dimensão psíquica da migração em ações clínicas, educacionais e psicossociais, reconhecendo a família e as instituições de acolhimento como espaços fundamentais para a construção de novos vínculos e para a continuidade dos processos identitários.
PALAVRAS-CHAVE: Migração forçada; Adolescência; Inserção sociocultural; Psicanálise Vincular; Contrato narcísico.
Votação encerrada.